1 - O senhor diz que as pessoas compram o que não precisam, com dinheiro que não possuem para impressionar quem não conhecem. O que as leva a fazer isso? O que sugere que façam para mudar esse tipo de atitude?
Magaldi - Creio que as razões para essa situação são o medo e a falta de sentido existencial. As mudanças de atitude, a meu ver, dependem apenas do autoconhecimento. Só ele poderá nos dar a capacidade de sermos menos impulsivos para podermos refletir sobre o porquê e o para que de cada ato existencial. Só assim deixaremos de consumir o desnecessário, o descartável e o luxo, para nos sentirmos pertencentes às estruturas sociais.
2 - Qual a relação entre dinheiro, saúde e sagrado? Como conciliar esses três itens, aparentemente tão distintos?
Magaldi - Dinheiro, saúde e sagrado se interpenetram. Geralmente a falta de um acaba produzindo a perda ou o aumento dos outros. Em muitas situações notamos que a falta de saúde produz perda de dinheiro e aumento de sagrado. Em outras a falta do sagrado produz aumento do dinheiro e a perda da saúde. Ou, na maioria das vezes, a falta do dinheiro produz o aumento do sagrado e a perda da saúde. Obviamente isso não é uma regra, e esses movimentos acontecem de forma dinâmica e natural, sempre integrando as demandas humanas do bem, do belo e do verdadeiro, presentes nas religiões, nas artes e nas ciências, respectivamente. E, a melhor forma de conciliar essas demandas é por meio do uso consciente do dinheiro. Ou seja, transformar o dinheiro em um elemento facilitador tanto para o sagrado, e toda sua estrutura ética e moral, quanto para a saúde, não só do indivíduo, mas da sociedade e do meio ambiente.
3 - No início do livro "Dinheiro, Saúde e Sagrado" o senhor comenta que durante suas pesquisas percebeu que as pessoas superestimam o papel do dinheiro em suas vidas. Há algum meio de mudar a atual visão existente sobre o dinheiro?
Magaldi - Qualquer análise histórica e antropológica deixa evidente a capacidade adaptativa, criativa e transformadora da espécie humana, principalmente nas situações de crise onde a superação acaba produzindo evolução. Não por acaso que o ideograma chinês que representa a crise também represente a oportunidade. Esta capacidade, por um lado, possibilitou nossa realidade científica e tecnológica, inimaginável a menos de cinqüenta anos atrás, e acabou contribuindo para a monetarização da vida, da saúde e da dádiva. Por outro lado, está nos levando para uma nova crise com repercussão ecológica, social, cultural, física, psíquica e espiritual, manifestada na forma de sintomas ambientais, comportamentais, relacionais, psicossomáticos, psiquiátricos e religiosos. Por isso tantas catástrofes, fanatismos, dependências, abusos, compulsões, com consumo exagerado de remédios, divórcios, solidão, desigualdades, exclusão, entre outras patologias.
Como o dinheiro é apenas uma energia que pode ser direcionada para qualquer foco, facilmente poderá ser usado para reverter essa situação crítica e alarmante que está se afigurando para o nosso futuro. Porém, para que isso aconteça, é necessário que uma quantidade significativa de pessoas passe por uma mudança de paradigmas, libertando-se das duas rodas viciosas e assimétricas que mantêm a engrenagem do atual capitalismo utilitarista em movimento. A roda maior, que é representada pela maioria das pessoas, movimenta-se num contínuo circular entre consumo, dívidas e trabalho, enredando e, conseqüentemente, alienando os indivíduos nesta rotina repetitiva. A roda menor, por sua vez, é representada por um pequeno número de pessoas, que vem diminuindo gradativamente, igualmente aprisionando-as no continuum circular entre poder, lucro e acúmulo. Sendo que, no eixo central desta engrenagem está a tentativa iludida da negação do medo e da angústia, temáticas inerentes e imanentes em todos os seres humanos, associadas ao desejo de se sentir pertencente e engajado em algum grupo social.
Por causa da angústia somos invadidos pelos temores da solidão, do receio da morte, do medo da liberdade e da falta de sentido existencial. Para quem ainda não conquistou o autoconhecimento, esses medos produzem reações defensivas caracterizadas pela contínua "obrigação" de se sentir pertencente, necessário, importante, produtivo, rico, saudável, acumulando posses e muitos deleites. Essas "obrigações", por sua vez, são responsáveis por uma infinita quantidade de dependências, abusos e compulsões. Entre elas os desejos de poder, de acúmulo, de consumo, associados à busca de prazer imediato, que acabam dando um alívio transitório à angústia, apesar de alienar e manter as pessoas mais aprisionadas às rodas viciosas.
Todo indivíduo que conseguir sair das rodas, além de transgredir o sistema, poderá repensar o sentido e o significado da sua existência, enfrentando o medo, aliviando sua angústia existencial, diminuindo seu consumo, reaproveitando e reciclando tudo o que for possível. Atividades absolutamente necessárias para que o futuro da humanidade seja viável, apesar de deixar todas as atuais estruturas capitalistas absolutamente assustadas, pois todo planejamento delas está calcado na utopia do crescimento continuado e infinito. De qualquer modo, com ou sem sofrimento, acredito que a civilização irá encontrar um novo modelo que redistribuirá a riqueza de forma igual e includente, restaurando tanto a cura quanto sacralização e o encantamento do mundo. Ressaltando que cura é sinônimo de integridade e de consistência, ou seja, entusiasmo, sentido e significado existencial.
4 - O que é o sagrado de que o senhor fala?
Magaldi - Entendo que o ser humano é a resultante de um processo evolutivo que engloba o corpo, a alma, o espírito e a consciência - para os gregos: soma, psique, pneuma e nous, respectivamente. O corpo, por ser um composto mineral, é finito e passível de decomposição, equivale ao hardware do computador. A alma, ou psique, representa a totalidade das temáticas emocionais, influenciando na formação do caráter e no modo em que o indivíduo vai processar os vários tipos de afetos, ou estímulos existenciais, equivalendo ao software do computador. O espírito é a energia vital que mantém corpo e alma unidos, é um fragmento da expressão sagrada do uno presente em todas as formas existentes, equivalente a energia elétrica que mantém o computador ligado. E a consciência, por sua vez, é o que nos dá o sentimento de presença no presente, é a capacidade de tomada de conhecimento dos mundos externo e interior, do que somos, do que sabemos, do que não sabemos, onde estamos e para onde vamos, representada pelo usuário/programador do computador.
Somente pelo viés da consciência que podemos fazer modificações nas outras três dimensões. Então, é na jornada do autoconhecimento que iremos alcançar a integridade e o sentido existencial que nos aproximará do sagrado, o reconhecimento do todo e a necessidade de servir a esse todo. Por isso, o sagrado equivale ao numinoso, aquela instancia que é simultaneamente fascinante e tremenda, provocando desejos paradoxais entre atração e medo. Porém, na minha experiência clínica, essa instancia é a mais importante a ser trabalhada, pois poderá possibilitar a conquista perene da felicidade, mesmo quando as pessoas tenham que lidar com as experiências de alegria ou tristeza, naturais da vida. Neste sentido, compartilho com a afirmação dada por C. G. Jung, ao dizer que no âmago das queixas de seus clientes estavam as questões religiosas, no sentido de religare que é a re-ligação da consciência com a totalidade, tanto intra quanto extra psíquica, para que o indivíduo encontre o sentido e o significado da sua existência.
5 - Qual a importância da espiritualidade para o ser humano?
Magaldi - Infelizmente, a maioria dos nossos lideres são pessoas com grande capacidade intelectual, mas empobrecidos moralmente, justamente por faltar a eles a dimensão espiritual. É na dimensão espiritual que os sentimentos de amor e tolerância, associados à ética e ao respeito, a si mesmo e aos próximos, podem acontecer. Como valorizamos apenas a aparência do mundo horizontal, a vida interior do mundo vertical fica de lado e é por isso que vemos tantos escândalos, corrupções, egoísmos, exclusões e abusos.
Só um indivíduo espiritualizado terá serenidade e discernimento para lidar com as dificuldades, aceitando os fatos imutáveis e buscando a transformação dos mutáveis. Lembrando que ninguém transforma ninguém, mas ninguém se transforma sozinho.
6 - O senhor pertence a alguma corrente religiosa?
Magaldi - Atualmente, depois de tanto estudo e experiências em busca da "re-ligação" do eu com o inconsciente, pessoal e coletivo, cheguei à infeliz conclusão de que, a grande maioria das religiões éexotérica, ou seja, coloca o sagrado ou Deus numa dimensão exterior. Com isso, elas tentam ser uma espécie de "despachantes" que prestam o serviço de intermediar nossa relação com o sagrado, e acabam deixando de exercer a re-ligação - função fundamental que todas as religiões deveriam assumir. Então, para recebermos o serviço desta intermediação, devemos ficar acorrentados nos dogmas, mitos e ritos da religião exotérica escolhida ou "contratada", e deixamos de nos conhecer verdadeiramente. Por isso, acabei aderindo à idéia de que quando a humanidade conseguir perceber que Deus está em tudo e não pertence a nada, ela encontrará a verdadeira religiosidade e se libertará das religiões que só servem para a vaidade e enriquecimento dos seus lideres. Situação bem diferente nas poucas e pequenas tradiçõesesotéricas, que levam o indivíduo a reconhecer o sagrado e a divindade dentro dele, na sua imanência, para depois poder atingir a transcendência desejada.